terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Apenas cinco anos

Cinco anos, apenas cinco anos.
Bem que o assento ao lado podia estar vazio. E justo duas crianças: Philip e Stephanie. Quem será a mãe dessas crianças tagarelas? Prontos para decolar e eu ainda tenho de ajudar Stephanie com o cinto. Tudo bem, tudo bem, são só cinquenta minutos.
Ela me olha sorrindo, com uma boca brilhante de gloss da Lancôme, que tira do bolso para me mostrar. Apenas cinco anos!
Meu ouvido de amante das línguas logo detecta um sotaque diferente, não de alguma região do Brasil, mas de algum país europeu. Deus sempre encontra um jeito peculiar de despertar nosso interesse para algo importante.
Philip, com nove anos, dirige-se em alemão ao pai, sentado do outro lado do corredor, um pouco mais atrás.
Trocamos algumas poucas palavras em alemão e vejo quatro olhos maravilhados me contemplando, como se eu tivesse acabado de sair de alguma fábula de Grimm. As jabuticabas de Stephanie grudadas em mim, sorrindo. A boca brilhante me conta coisas como aprender espanhol com a empregada colombiana, como não poder pisar na asa do avião e como morar parte do tempo em Campo Grande e a outra parte em Zurique. Apenas cinco anos!
Mastigamos caramelos sem fazer barulho, comemos sanduíche quente sem espalhar migalhas. Rimos. Sem impertinência, sem chutes na poltrona da frente. Sem lembretes dos pais para que se comportem.
Cinquenta minutos passam tão rápido!
E então a boca retocada por mim com gloss brilhante para de sorrir e lança a pergunta.
"Não, eu não tenho filhos."
Ainda não satisfeita, continua indagando.
"Não sei ainda, talvez."
O irmão interrompe, "eu não quero ter filhos."
A pele morena e delicada de Stephanie, os olhos negros e a boca brilhante, com apenas cinco anos, sopram o discurso no ar como bolhas de sabão, "eu quero ter muitos filhos!" E fazendo uma pausa, virando-se para mim, já vendo a cidade de São Paulo subindo pela janela, completa, "tem que ter, viu, senão depois você se arrepende!" E seus olhos não desgrudam dos meus, certificando-se de que eu tenha entendido, voltando a ser olhos de criança logo em seguida. Apenas cinco anos!
Às vezes me pego pensando em Stephanie.
Talvez  o assento ao lado realmente estivesse vazio.
Chega de silêncio!
Preciso de barulho na minha vida: barulho de fluidos corpóreos se movimentando no meu ventre quieto, hibernante.
Preciso de uma partida de futebol, neste estádio vazio, em construção, que é o meu corpo. Preciso de um Maracanã lotado dentro de mim, com torcida organizada cantando hinos em uníssono ao som de bumbos.
Necessito acordar, berrando de uma dor que cura, e trazer à luz o fruto que berra comigo no mesmo tom.
Quero ouvir o eco ressonando pelos quatro cantos da casa, despertando as paredes mudas.
Preciso aguçar os ouvidos aos gemidos, grunhidos, risadas que hão de vir me tirar a paz ilusória, para trazer-me a paz verdadeira.
É chegada a hora de abafar o som do silêncio e amplificar o grito da vida!
A orquestra, a postos, aguarda o sinal do grande maestro.

Vívian Marques Alves

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dia Internacional de Viver o Dia de Hoje Intensamente

Hoje é um dia muito especial. Porque é o Dia Internacional de Viver o Dia de Hoje Intensamente. Acontece 365 dias por ano, embora seja raramente lembrado ou festejado. Recomenda-se  escolher trajes e sentimentos leves, mas principalmente passos firmes e decididos. Pode-se celebrar na companhia de quem se gosta, ou até sozinho; só não é recomendável aproximar-se de carrancudos e pessimistas (pode ser contagioso!). Feliz Dia de Hoje!

(Publicado no Livro da Tribo 2013)

Orgulho

Por que o Homem ainda insiste em seu orgulho, ao invés de adotar o que há de melhor em cada povo? Certamente, a Humanidade caminharia muito mais rapidamente em direção à evolução, ou melhor, às "evoluções": intelectual, moral, espiritual.
Imagino como será o mundo dos Homens disciplinados como os alemães, honestos como os japoneses, práticos como os americanos, espiritualizados como os indianos, tolerantes religiosamente como os brasileiros, conhecedores da arte de viver como os franceses, ponderados como os escandinavos.
Quando se viaja pelo mundo, pode-se constatar o desequilíbrio entre falhas (ou faltas!) e virtudes, o que é surpreendente num mundo em que pessoas circulam por todas as partes, e muitas delas dizem gostar de viajar para "conhecer" lugares e pessoas. De que vale conhecer o outro se não para compartilhar o que se tem de melhor?
É lamentável ver que o orgulho ainda dá as cartas, que a intolerância ainda reina e que o jogo de interesses ainda é algo visto como "necessário à soberania das nações".
Equívoco!
Mas essa é só uma dorzinha de cabeça pela qual passa a Humanidade. Já já sara!

Vívian Marques Alves
O tempo sempre leva tudo embora,
tanto o que é maravilhosamente bom,
quanto o que é terrivelmente ruim.
E sempre traz coisas novas...
ou histórias antigas
contadas de um jeito todo novo.

Vívian Marques Alves

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CRER PARA VER

Diga ao Universo (ao Todo, a Deus, ao Eu Sou) o que você quer,
com firmeza e certeza. Porém, não determine nem meios nem prazos,
porque você não é um quebra-cabeça de uma peça só e
porque o tempo do Universo não leva em conta o seu imediatismo.
Há mais poder nisso do que sonha a limitada mente humana.

Vívian Marques Alves

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

FELIZ por estar voltando para mim mesma, para EU SOU.
FELIZ por ter tido a chance de errar e podido admitir o erro,
encarando-me no espelho.
FELIZ por ter retomado o rumo certo.

Vívian Marques Alves

terça-feira, 24 de maio de 2011

Dando aula de inglês para minha sobrinha, Julia, hoje, me dei conta de algo que já era tão evidente! Percebi que minha maior semelhança com meu pai é a empolgação ao falar de coisas das quais gostamos. Eu, que sempre me achei tão diferente dele, de repente, me reconheci tão semelhante... E me senti feliz! De alguma forma, esse é um jeito de mantê-lo vivo. Falar de Paris para a Julia me fez ouvir novamente a voz empolgada daquele que uma vez pediu que me lembrasse dele quando estivesse diante da Torre Eiffel cintilante, prometendo que, quando voltasse a enxergar, iria vê-la com seus próprios olhos. Não me pediu perfume, não me pediu presente. Pediu apenas uma lembrança. Eu dei a lembrança e, de brinde, uma lágrima.

Vivian Marques Alves

sexta-feira, 29 de abril de 2011

PAI

Ele era único.
E quem teve o privilégio de conhecê-lo, sabe disso.
Mais únicas ainda eram suas tiradas, que de tão originais viraram gíria entre os familiares e amigos.
Ele aumentava um pouco? Talvez. Mas esse era apenas o toque especial, que tornava as suas estórias mais interessantes.
Batalhador...
Competente...
Visionário...
Obstinado...
Vencedor...
Polêmico...
Ranzinza...
Gozador...
Severo...
Teimoso...
Centralizador...
Sonhador...
Cada um que fez parte da sua vida poderia encontrar uma infinidade de adjetivos para descrevê-lo.
Com seu um metro e sessenta, era um gigante! Como dizia um de seus amigos, “Ai se ele tivesse um e setenta!”
Nos seus setenta e quatro anos de vida deixou no coração de cada um de seus contemporâneos uma saudade em particular.
No meu coração, essa saudade é gigante... como ele também o foi!

Vívian Marques Alves

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Há quem diga: "antes só do que mal acompanhado".
Eu? Eu digo: antes bem acompanhado do que só.

Vívian Marques Alves

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hoje faço aniversário!
Será que envelheço?
Será que me esvaeço?
Ou será este só o começo?

27 de fevereiro de 2011
Vívian Marques Alves

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

E o que é o fim, senão um recomeço?

Vívian Marques Alves

domingo, 30 de janeiro de 2011

Você reconhece um amor pleno quando vê no outro o que falta em você. Porém, na verdade, não falta nada em você, que já é um ser completo e único no mundo. O outro, apenas e simplesmente, por vezes te lembra de quem você realmente é. E, então, você mesmo se completa.

Vívian Marques Alves
Hoje, posso dizer que já viajei da ultraindependência à ultradependência. E nenhuma delas me agrada.

Vívian Marques Alves

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sou irremediavelmente imediatista, principalmente em se tratando de decisões e de felicidade.

Vívian Marques Alves

sábado, 22 de janeiro de 2011

É um tanto mais fácil deixar de amar alguém que tão pouco cuidou do seu amor.

Vívian Marques Alves

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Vinho versus banana

Dizem que o homem é como o vinho: quanto mais velho, melhor vai ficando.
Pois é, e mulher é como a banana: quanto mais velha, mais mole e pintada vai ficando.

Vívian Marques Alves

domingo, 16 de janeiro de 2011

Quando se escreve, permite-se que as palavras, de abstratas, tornem-se concretas; que os sentimentos, de aprisionados, tornem-se libertos; que o coração, de só bater, passe a falar.

Vívian Marques Alves

sábado, 15 de janeiro de 2011

Religião

olhar para o alto.
tão alto que se tenha
um torcicolo eterno
e nunca mais se possa
olhar direto para o próximo.
(Ulisses Tavares)

Tantas religiões, tantos que dizem crer e ter fé...
Está na hora de tirar a religião dos templos e trazê-la para a vida!

sábado, 21 de agosto de 2010

Duas casas foram construídas idênticas, ao mesmo tempo. Um dia, apareceu uma rachadura em uma delas, enquanto a tinta da parede da outra começou a descascar. O que tornou as duas casas diferentes foram suas imperfeições.

Vívian Marques Alves