Cinco anos, apenas cinco anos.
Bem que o assento ao lado podia estar vazio. E justo duas crianças: Philip e Stephanie. Quem será a mãe dessas crianças tagarelas? Prontos para decolar e eu ainda tenho de ajudar Stephanie com o cinto. Tudo bem, tudo bem, são só cinquenta minutos.
Ela me olha sorrindo, com uma boca brilhante de gloss da Lancôme, que tira do bolso para me mostrar. Apenas cinco anos!
Meu ouvido de amante das línguas logo detecta um sotaque diferente, não de alguma região do Brasil, mas de algum país europeu. Deus sempre encontra um jeito peculiar de despertar nosso interesse para algo importante.
Philip, com nove anos, dirige-se em alemão ao pai, sentado do outro lado do corredor, um pouco mais atrás.
Trocamos algumas poucas palavras em alemão e vejo quatro olhos maravilhados me contemplando, como se eu tivesse acabado de sair de alguma fábula de Grimm. As jabuticabas de Stephanie grudadas em mim, sorrindo. A boca brilhante me conta coisas como aprender espanhol com a empregada colombiana, como não poder pisar na asa do avião e como morar parte do tempo em Campo Grande e a outra parte em Zurique. Apenas cinco anos!
Mastigamos caramelos sem fazer barulho, comemos sanduíche quente sem espalhar migalhas. Rimos. Sem impertinência, sem chutes na poltrona da frente. Sem lembretes dos pais para que se comportem.
Cinquenta minutos passam tão rápido!
E então a boca retocada por mim com gloss brilhante para de sorrir e lança a pergunta.
"Não, eu não tenho filhos."
Ainda não satisfeita, continua indagando.
"Não sei ainda, talvez."
O irmão interrompe, "eu não quero ter filhos."
A pele morena e delicada de Stephanie, os olhos negros e a boca brilhante, com apenas cinco anos, sopram o discurso no ar como bolhas de sabão, "eu quero ter muitos filhos!" E fazendo uma pausa, virando-se para mim, já vendo a cidade de São Paulo subindo pela janela, completa, "tem que ter, viu, senão depois você se arrepende!" E seus olhos não desgrudam dos meus, certificando-se de que eu tenha entendido, voltando a ser olhos de criança logo em seguida. Apenas cinco anos!
Às vezes me pego pensando em Stephanie.
Talvez o assento ao lado realmente estivesse vazio.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Chega de silêncio!
Preciso de barulho na minha vida: barulho de fluidos corpóreos se movimentando no meu ventre quieto, hibernante.
Preciso de uma partida de futebol, neste estádio vazio, em construção, que é o meu corpo. Preciso de um Maracanã lotado dentro de mim, com torcida organizada cantando hinos em uníssono ao som de bumbos.
Necessito acordar, berrando de uma dor que cura, e trazer à luz o fruto que berra comigo no mesmo tom.
Quero ouvir o eco ressonando pelos quatro cantos da casa, despertando as paredes mudas.
Preciso aguçar os ouvidos aos gemidos, grunhidos, risadas que hão de vir me tirar a paz ilusória, para trazer-me a paz verdadeira.
É chegada a hora de abafar o som do silêncio e amplificar o grito da vida!
A orquestra, a postos, aguarda o sinal do grande maestro.
Vívian Marques Alves
Preciso de barulho na minha vida: barulho de fluidos corpóreos se movimentando no meu ventre quieto, hibernante.
Preciso de uma partida de futebol, neste estádio vazio, em construção, que é o meu corpo. Preciso de um Maracanã lotado dentro de mim, com torcida organizada cantando hinos em uníssono ao som de bumbos.
Necessito acordar, berrando de uma dor que cura, e trazer à luz o fruto que berra comigo no mesmo tom.
Quero ouvir o eco ressonando pelos quatro cantos da casa, despertando as paredes mudas.
Preciso aguçar os ouvidos aos gemidos, grunhidos, risadas que hão de vir me tirar a paz ilusória, para trazer-me a paz verdadeira.
É chegada a hora de abafar o som do silêncio e amplificar o grito da vida!
A orquestra, a postos, aguarda o sinal do grande maestro.
Vívian Marques Alves
Assinar:
Postagens (Atom)